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Matriz de Pirenópolis

Que saudades eu tenho da velha igreja Matriz de Pirenópolis! Falo do templo original, aquele aonde iam meus antepassados para assistir missa, orar em despedida dalgum morto ou participar de festivos casamentos, batizados, crismas etc. Essa réplica que aí está não me convence, eu a acho feia em seu interior, pelada de adereços e vazia de significados. Tudo acabou num incêndio que ninguém conseguiu explicar, há quase uma década, e lá se foram o sino fabuloso, a prataria pesada, o altar-mor de custoso entalhe, os altares laterais, o paraíso pintado por Tonico do Padre no teto da capela-mor, os florais no barrado das paredes etc. e tal.


O fogo não causou males irreversíveis na parte exterior do templo, pois as grossas paredes de taipa-de-pilão restaram intactas, assim como as torres e as sacristias. Mas o interior não tem nada a ver. A ideia de instalar na Matriz o altar-mor da igreja do Rosário dos Pretos, cá para nós, foi infeliz ao extremo. Os artesãos da época não fabricaram a peça para um templo das dimensões da Matriz e então sobra um espaço sem sentido nas laterais. Eu sou até a favor da reconstrução da igreja dos Pretos... mas isso é lá outra história, para outra postagem.

Quando a Matriz foi reformada na década de 1990, eu era o tesoureiro da Sociedade dos Amigos de Pirenópolis (Soap) e acompanhei a obra bem de perto. Pude ver que todos os altares foram desmontados, catalogados e fotografados. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) tem esse material em arquivo. Portanto, há condições técnicas para refazer todos os altares destruídos no incêndio, inclusive o altar-mor.

O desastre que parcialmente destruiu a Matriz, na minha opinião, deve ser superado. As relíquias que haviam lá dentro podem ser substituídas e a imagem da tragédia apagada da memória dos pirenopolinos. Fico triste quando entro na sacristia e vejo um “museu do incêndio”, ou transito pelos nichos dos antigos altares e há um buraco na parede. Isso é macabro, não contribui para melhorar a imagem da cidade e ainda por cima dá a sensação de que a Matriz não existe mais, é apenas uma réplica, o que não é verdade.

O imperador e sua corte 1

Cartaz da Festa do Divino de 2009
Foto: Arquivo da Biblioteca Pyraí

A Festa do Divino de Marcus de Siqueira foi bastante organizada e cheia de atrativos. O imperador não economizou com fogos e bombas. Não era difícil acordar no meio da madrugada com suas descargas de ronqueira, explosões capazes de fazer qualquer um saltar da cama para correr atrás duma alvorada. Sua residência, localizada na rua Direita, foi elegantemente paramentada para o final de semana da festa, com bandeiras vermelhas e uma pomba branca ao centro nas janelas, e construiu um amplo e arejado galpão para recepção dos visitantes. Toda a extensão da rua Direita até chegar na igreja Matriz foi enfeitada com bandeirolas vermelhas; algumas casas da vizinhança também se paramentaram com bandeiras nas janelas, o que causou um agradável aspecto.

O único inconveniente foi mesmo a chuva. Embora o trajeto do cortejo entre a casa do imperador e a Matriz tenha sido apenas com céu fechado, o mesmo não se diga do retorno, quando desabou um temporal daqueles. Mas isso por si só não foi o suficiente para tirar o colorido da festa, e quando a missa solene terminou, o povo se reuniu outra vez à sua porta, local onde se distribuiu o docinho verônica, um precioso alfenim de açúcar alvíssimo e com motivos religiosos encrustados.

No Sábado do Divino (30.05.2009), exatamente ao meio-dia, a Banda Fênix tocou na lateral poente da igreja Matriz, junto à torre do sino, ocasião em que se apresentaram também a contra-dança, alguns passos de As Pastorinhas infantil, o congo e a congada. Nesse ínterim, os mascarados apareciam aos poucos, alguns com máscaras gigantescas de boi, outros com vestimentas custosas e sofisticadas, mas todos com alegria contagiante e espírito de paz. Quando as apresentações terminaram, o imperador saudou Pirenópolis com grande foguetório.

À noite o padre celebrou o encerramento da novena, ergueram o mastro ao som maravilhoso da banda e uma tímida fogueirinha brilhou. Mas quando a população desceu para a beira do rio das Almas, pôde contemplar um esplendoroso espetáculo pirotécnico, desses de ficar na história.


by Adriano César Curado

Festa do Divino 7

Solar de Sansa Lopes
local onde os mouros encastelavam
Cavalhadas no largo
Foto: Arquivo da Biblioteca Pyraí

As famosas Cavalhadas de Pirenópolis acontecem exatamente quando findam os festejos religiosos e começam os profanos. No Domingo do Divino ocorre o primeiro dia da encenação das Cavalhadas, com uma batalha campal entre doze cavaleiros cristãos (azuis) contra doze mouros (vermelhos); e depois de várias coreografias, saem os cavaleiros do campo e retornam com um pedido de trégua.

No segundo dia, após novos embates, finalmente os mouros sucumbem e são batizados pelos cristão. Daí até o terceiro e último dia, serão apenas carreiras de confraternização e de brincadeiras, como a troca de rosas e a disputa de argolinhas.

Nos dias atuais, as Cavalhadas são encenadas num lugar especialmente construído para este fim e que ficou conhecido pelo horroroso nome de “cavalhódromo”, localizado num antigo campo de futebol, à entrada da cidade, na rua do Campo.

Até o ano de 1958, no entanto, as Cavalhadas eram encenadas no antigo largo que ficava detrás da Matriz e que hoje está tomado pela praça Central, pela casa paroquial e pelo prédio do correio. Os mouros encastelavam-se no lado nascente, em frente do solar de Sansa Lopes. Tinham eles vestimentas bastante simples, sem muitos brilhos e adereços, à exceção do rei e do embaixador. Já os cristãos, encastelados do lado poente, em frente à casa de José de Pina, trajavam-se de azul, com roupas semelhantes ao fardamento da polícia antiga, com colete e quepe.

Nesta época, as Cavalhadas eram assistidas somente pelos pirenopolinos e uns poucos visitantes, e não aconteciam com regularidade, pois dependiam da autorização e do ânimo do festeiro. Muitos moradores mais antigos de Pirenópolis afirmam que aquelas Cavalhadas foram as melhores, quer pelo romantismo que as caracterizavam, quer pela inocência daqueles anos, quer pela ínfima quantidade de gente que participava dos festejos de Pentecostes.

Bibliografia:
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O Divino, o santo e a senhora. Rio de Janeiro: Funarte, 1978.
CARVALHO, Adelmo. Pirenópolis, coletânea 1727-2000, história, turismo e curiosidade. Goiânia: Kelps, 2000.
CURADO, Glória Grace. Pirenópolis, uma cidade para o turismo. Goiânia: Oriente, 1980.
FERREIRA COSTA, Lena Castelo Branco. Arraial e coronel. São Paulo: Cultrix, 1970.
JAYME, Jarbas. Esboço histórico de Pirenópolis. 2 v. Goiânia: Imprensa da UFG, 1971.
JAYME, José Sisenando. Pirenópolis (humorismo e folclore), 1983.
SILVA, Mônica Martins da. A festa do Divino – romanização, patrimônio e tradições em Pirenópolis (1890-1988).


by Adriano César Curado